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Domingo, 13 Outubro 2019 14:34

Moradores de rua lutam por inclusão em políticas sociais e contam com a solidariedade de voluntários




FONTE: G1 

Profissão Repórter acompanhou a rotina de moradores de rua que buscam presença em políticas públicas. O programa também conta a história do padre Júlio Lancelotti, que sempre dedicou a vida aos mais pobres e também mostra a solidariedade dos pais de rua.

Moradores de rua lutam por inclusão em políticas sociais e contam com a solidariedade de voluntáriosMoradores de rua lutam por inclusão em políticas sociais e contam com a solidariedade de voluntários

Em agosto de 2004, sete moradores de rua foram mortos na Praça da Sé, no Centro de São Paulo.

Na época, o padre Júlio Lancelotti, conhecido pela luta em favor das crianças e da população de rua se engajou em cobrar das autoridades resultados concretos das investigações, mas até hoje ninguém foi condenado pelos crimes.

“São 15 anos que isso caminhou e não chegou a responsabilizar ninguém”, diz o padre Júlio Lancelotti.

O incidente foi o estopim para a criação de um movimento de população em situação de rua. O coordenador do projeto em São Paulo é Darcy Silva Costa. Ele também foi morador de rua, um dos requisitos para liderar o movimento.

“Eu vivenciei, estive na rua por muito tempo. Quem está na rua se organiza a partir da rua, como os catadores, até mesmo o movimento nacional tem a experiência da rua, da vivência”, explica Darcy sobre o movimento.

“Já passei por um monte de ‘borogodó’. Já passei por cemitério, abrigo, maloca. Uma maravilha dormir no cemitério. Um silêncio eterno, ninguém te incomoda, ninguém te enche o saco”, diz Anderson Miranda, que também é coordenador do Movimento Nacional da População em Situação de Rua.

O repórter Júlio Molica acompanhou um protesto do movimento na sede do IBGE, em São Paulo. Os manifestantes pedem que a população de rua seja contabilizada no censo, que deve ser divulgado no ano que vem.

“Se ela não é recenseada, se ela não é incluída, se ela não é contada, não tem política pública para essa população. E o que vai existir, como existe até hoje é caridade, é assistencialismo barato de primeiro damismo e nós não queremos mais isso. Nós queremos ser incluídos na moradia, no trabalho, na saúde e na educação”, completa Anderson sobre o censo do IBGE.

Questionado pela reportagem do Profissão Repórter se a população de rua será incluída no censo de 2020, o chefe estadual do IBGE/SP, Francisco Garrido, disse que com a metodologia atual não é possível.

“Como a metodologia está posta hoje, não tem como colocar porque o censo brasileiro é um censo domiciliar. Então, se houver essa inserção, o IBGE vai ter que mudar parte da metodologia para essa inclusão”, explica Francisco.

Pressão por melhorias

A equipe do Profissão Repórter também acompanhou uma marcha do Movimento Nacional da População em Situação de Rua em Brasília para pressionar a classe política para incluir a população de rua em políticas públicas.

O repórter Júlio Molica viajou de ônibus com o movimento de São Paulo até a capital federal. Em Brasília, pessoas de movimentos de outros estados se juntaram à manifestação. Eles ergueram barracas e caminharam por seis quilômetros rumo ao Congresso Nacional.

"Nós somos gente, nem bicho, nem lixo. Somos pessoas em situação de rua que merecem a segunda chance de viver dentro de uma sociedade", diz um dos manifestantes.

"Estou muito feliz, isso é um fato histórico da luta, do movimento da população em situação de rua. Acho que nunca teve tantas pessoas presentes dentro de um Congresso nacional", diz Darcy Silva sobre a oportunidade de estar em Brasília.

No evento, deputados anunciaram a criação de uma frente parlamentar. A ideia é que, pela primeira vez na história, os congressistas unam forças para criar políticas públicas voltadas para pessoas em situação de rua.

No dia seguinte houve uma audiência em que pessoas em situação de rua do país inteiro foram convidadas a falar sobre os problemas que enfrentam.

"É muita revolta, muita indignação. E a gente só vê quem pode fazer alguma coisa só piorando para nós. Eu vivi para esse momento para a gente pensar na geração futura, pensar nas crianças de rua hoje e falar para eles, que espero que não cheguem na minha idade com essa situação", desabafa Sebastião Nicomedes, que é desempregado e falou na audiência pública.

Solidariedade

Caco Barcellos conheceu o padre Júlio Lancelotti, fundador da Pastoral da Rua, da Arquidiocese de São Paulo, em 1984. Na época, ele já prestava ajuda aos mais necessitados em situação de rua e hoje, 35 anos depois, continua fazendo o mesmo trabalho.

"Eu tenho receio de que a gente esteja indo para uma comoção social. A quantidade de gente na rua aumentou muito, a quantidade de jovens na rua é impressionante", diz o padre Júlio.

Caco acompanhou o padre Júlio e voluntários distribuindo cobertores e comida na madrugada mais fria do ano em São Paulo. A temperatura chegou a marcar 6ºC.

"O dia que eu deixar de sentir alguma coisa por essas pessoas, eu acho que deixei de ser humano", diz uma voluntária. Ela também fala da importância do trabalho do padre Júlio. "Ele me ensina todos os dias. É uma outra vida. É olhar o ser humano e ver Jesus no olhar do outro", completa.

"Ele é um paizão nosso. Está sempre ajudando no que pode", diz um morador de rua.

"É o homem mais querido daqui do parque da Mooca. Eu gosto muito dele", diz outro sobre a importância do padre.

Além de sair à noite para distribuir cobertores e comida a pessoas em situação de rua, o padre Júlio Lancelotti também celebra uma missa e ao final acolhe novos moradores de rua.

Um dos trabalhos mais conhecidos do padre Júlio foi a criação da Casa Vida, que acolhia crianças em situação de rua abandonadas pelos pais.

"Eles chegavam mais pela rede de crianças abandonadas, que na época ainda era a Febem. E quando a princesa Diana veio ao Brasil, a Thaís foi uma que foi parar no colo da princesa Diana. Hoje ela é agente social e trabalha cuidando também de moradores de rua", explica o padre Júlio.

Thaís Bispo dos Santos saiu da Casa Vida quando completou a maioridade. Hoje, ela tem uma atividade muito parecida com a do padre Júlio Lancelotti. Thaís trabalha em um projeto social que oferece cuidados a pessoas em situação de rua.

"Eu tenho ele como um pai. Na realidade, a Casa Vida, por conta de todo o trabalho, foi bem importante para mim", diz Thaís.

Na última segunda-feira (2), seguranças do metrô de São Paulo foram flagrados agredindo pessoas em situação de rua que estavam dormindo na estação da Sé, no Centro da cidade.

Em nota, o Metrô alega que um dos agentes foi agredido e que depois disso começou a confusão. O comunicado também informa que o funcionários envolvidos foram afastados até o término do inquérito policial que investiga o caso.

Pais de rua

A repórter Sara Pavani conversou com a jornalista Esmeralda Ortiz, que participou do Profissão Repórter em 2007 como repórter convidada. Ela passou toda a infância nas ruas, mas conseguiu superar a situação e se formou na faculdade.

Esmeralda lançou um livro sobre o morador de rua José Aparecido Nogueira, que foi carinhosamente chamado de Tio Barbudo. Foi ele quem cuidou dela quando criança.

"Eu escrevi esse livro em uma versão infanto-juvenil, porque ele trabalha com criança. Então crianças têm que conhecer histórias de novos heróis", diz Esmeralda sobre o livro.

Sara e Esmeralda foram a procura de Tio Barbudo pelas ruas de São Paulo e o encontraram em uma estação de metrô, na avenida Paulista.

"Eu o conheci quando tinha nove anos de idade. Eu morava na rua nessa época. Eu estava muito perdida porque muitas pessoas se aproximavam para falar que iam ser pai de rua, mãe de rua, mas era para abusar, aliciar. O Tio Barbudo me acolheu, me arrumou um lugar para dormir e me dava amor como um pai", conta Esmeralda.

Tio Barbudo passa o dia inteiro na rua pedindo doações para eles e seus filhos de rua. Ele dorme em um quarto alugado na Cracolândia, no Centro de São Paulo.

"Me sinto como um útil, porque nada pode ser mais vazio na vida de um ser humano do que a pessoa não ter uma utilidade para oferecer a sociedade onde ele vive. Eu espero melhoras nessa sociedade em que a gente vive atualmente, que ela se interesse pelo mais fraco, que ela deixe de tratar com desdém o mais fraco", diz sobre o trabalho que ele faz.

Após o reencontro, Esmeralda convida Tio Barbudo para o lançamento do livro que ela escreveu sobre a história dele. Mas ele não apareceu.

Durante o evento, Esmeralda apresentou um outro pai de rua, Jaílson de Oliveira, que vive há mais de 20 anos na Cracolândia e hoje está livre de drogas.

"Eu tento mostrar para eles que há um outro lado da vida. Nós ajudamos a população da Cracolândia, nos fazemos a sopa para dar para eles, doamos roupas", explica Jaílson.

"Não foi minha família que se afastou de mim, não foram meus filhos que se afastaram, foi eu que escolhi. Fizeram de tudo por mim e eu não quis, preferi esse mundo pobre, ai eu paguei o preço."

Após falar com Jaílson, a equipe do Profissão Repórter saiu em busca do Tio Barbudo e o encontrou no quarto que ele aluga, na Cracolândia, no Centro de São Paulo. Já sem a famosa barba grisalha, ele conversou com a repórter Sara Pavani e mostrou o lugar em que mora - um quarto pequeno, com apenas um colchão e uma saída para ventilação.

"Estou morando aqui desde 1994. O importante é que não entra água, não chove aqui dentro e nem nada", diz.

"Ser pai de rua é ser compreensivo, é entender que as pessoas não caem, elas são derrubadas. As pessoas procuram alguém que as ajude a carregar o destino dela. Comprar uma comidinha, uma roupa, trazer uma coberta", explica Tio Barbudo.

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